terça-feira, 22 de novembro de 2016

Carolyn Forché: o que vês na TV

Super-activista, ultra-esquerdista ( muita coisa sobre El Salvador)  empenhada, feminista etc. Escolhe, e muito bem, a poesia testemunhal: com ela  não há floreados, as coisas são o que são. Americana, coberta de prémios, tem agora 66 anos. 
Podes ler isto em voz alta de cada vez que na tua sala entram as criancinhas de Alepo:
 
 
 
Sleep to sleep through thirty years of night,
a child herself with child,
for whom we searched

through here, or there, amidst
bones still sleeved and trousered,
a spine picked clean, a paint can,
a skull with hair


Sewn into the hem of memory:
Fire.
God of Abraham, God of Isaac, God of Jacob,
God not
of philosophers or scholars. God not of poets.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Hofmannsthal-Rilke, discussões

A 1 de Novembro de 1905, em Viena, Hofmannsthal escreve  a Rilke. Correspondiam-se muito , mas nessa carta  há um facto notável. Rilke tinha enviado  três poemas para a Neue Rundschau e Hofmannsthal agradece, mas pergunta-lhe: porquê pôr esses versos em prosa?
Claro que sempre existiu, mas a prosa poética na  altura ainda não era muito comum se bem que vários consagrados  a usassem:  de Novalis a Heine, Eliot , o próprio Rilke etc
Aproveite-se  um poema ( Namen) de Hofmannsthal em que ele  responde à pergunta que fez ao amigo ( trad de Jean-Yves Masson):

Viége est le nom d'une rivière écumante. Goethe est un autre nom.
Là le nom vient de la chose; ici celui qui le porte en a créé la résonance.

 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Casais Monteiro: fallando comsigo

Pessoa escreve-lhe no português da altura  ( não se pode mudar  a língua. não é?):  como se estivesse fallando comsigo, para que possa escrever immediatamente.
Casais Monteiro fala como estivesse na nossa sala, recostado num sofá, um cigarro na mão, o olhar no tecto:

Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida

( in Sempre  e Sem Fim, 1937)

sábado, 15 de outubro de 2016

O outro Dylan : impostos sobre o ar

Que certamente muitos indignados  com o actual Dylan ( nele se inspirou)  nobelizado estão fartos de ler. É um freguês  frequente das minhas perambulações blogueiras e hoje escolho o poema que titulou uma (já) velhinha edição  ( A mão ao assinar este papel, Assírio, 1998)  organizada  e prefaciada por Fernando Guimarães:

The hand signed this paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did  a king to death. 

Sim, Guimarães traduz correctamente ( breath-respiração), mas prefiro o ar.
Ide ler o resto do poema.



domingo, 21 de agosto de 2016

Tremendistas e sandeus

O Auto de Mofina Mendes ( completa com o da Cananeia e o Breve Sumário a triologia dos Mistérios da Virgem ) é um pedacito de propaganda  política de Gil Vicente contra Henrique VIII e as sarrafuscas com  o Papa. 
É  um bom pretexto para revisitar  a tradição, também portuguesa, de tremendismo e  anúncio da decadência. Desde  1534 pouco mudou:

Sem memória nem cuidado
dormem em cama de flores
feita de prazer sonhado.
( ...)
 Todo  o mundo está mortal,
Posto em tão escuro porto
De uma cegueira geral,
Que nem fogo, nem sinal,
Nem vontade : tudo é morto.

Justo recordar  o humor que pode ter o anúncio da decadência do mundo.  A abrir o Auto, o Frade  anuncia:

Três coisas acho que fazem
ao doido ser sandeu:
a uma, ter pouco siso de seu,
a outra, que esse que tem 
nem lhe presta nem mal nem bem;
e a terceira,
que endoidece em grã maneira,
é o favor ( livre-nos Deus)
que faz do vento cimeira,
do toutiço moleira,
e das ondas faz ilhéus.








segunda-feira, 25 de julho de 2016

João Miguel Fernandes Jorge, de novo:

Importa que não haja ilusões sobre este ponto  : é
que todos podemos morrer  de sede em pleno mar.

( Alguns Círculos, 1975)

De certa forma, de todas as formas, isto é um anúncio contra o tabagismo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cozinha canibal

Escolha um político maduro,
mas que não seja muito velho.
Faça a incisão  como nas lampreias
e retire-lhe as promessas  leva-as-o-vento
( quanto mais velho, mais tem).

Besunte-o com alho e sal
e no jardim
recolha um ramimho de  politólogos viçosos.
Lave-os muito bem e recheie o bucho do político.

Tempere tudo com pó dos Espírito Santo,
ligue a televisão  nos 200º
e deixe cozer até à hora do telejornal.