domingo, 21 de agosto de 2016

Tremendistas e sandeus

O Auto de Mofina Mendes ( completa com o da Cananeia e o Breve Sumário a triologia dos Mistérios da Virgem ) é um pedacito de propaganda  política de Gil Vicente contra Henrique VIII e as sarrafuscas com  o Papa. 
É  um bom pretexto para revisitar  a tradição, também portuguesa, de tremendismo e  anúncio da decadência. Desde  1534 pouco mudou:

Sem memória nem cuidado
dormem em cama de flores
feita de prazer sonhado.
( ...)
 Todo  o mundo está mortal,
Posto em tão escuro porto
De uma cegueira geral,
Que nem fogo, nem sinal,
Nem vontade : tudo é morto.

Justo recordar  o humor que pode ter o anúncio da decadência do mundo.  A abrir o Auto, o Frade  anuncia:

Três coisas acho que fazem
ao doido ser sandeu:
a uma, ter pouco siso de seu,
a outra, que esse que tem 
nem lhe presta nem mal nem bem;
e a terceira,
que endoidece em grã maneira,
é o favor ( livre-nos Deus)
que faz do vento cimeira,
do toutiço moleira,
e das ondas faz ilhéus.








segunda-feira, 25 de julho de 2016

João Miguel Fernandes Jorge, de novo:

Importa que não haja ilusões sobre este ponto  : é
que todos podemos morrer  de sede em pleno mar.

( Alguns Círculos, 1975)

De certa forma, de todas as formas, isto é um anúncio contra o tabagismo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cozinha canibal

Escolha um político maduro,
mas que não seja muito velho.
Faça a incisão  como nas lampreias
e retire-lhe as promessas  leva-as-o-vento
( quanto mais velho, mais tem).

Besunte-o com alho e sal
e no jardim
recolha um ramimho de  politólogos viçosos.
Lave-os muito bem e recheie o bucho do político.

Tempere tudo com pó dos Espírito Santo,
ligue a televisão  nos 200º
e deixe cozer até à hora do telejornal.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Europa


O que perdeste não podia ser teu
e isso chega  para te conformares.

Podes
submeter uma moção,
convocar raivosos,
desenhar o pedal único,
incendiar  um pardal.

Deves, no entanto, aprender
com Teógnis
e considerares-te
uma cidade saqueada.



segunda-feira, 18 de julho de 2016

Margaret Widdemer

I saw the little daughters of the poor,
Tense from the long day's working, strident, gay,
Hurrying to the picture-place. There curled
A hideous flushed beggar at the door,
Trading upon his horror, eyeless, maimed,
Complacent in his profitable mask.

A poesia tem esta capacidade de  síntese. O trabalho infantil e  a pobreza sem floreados burocráticos nem trombetas políticas. A Margaret  nasceu na Pensilvânia e morreu,  em 1978, com 94 anos. 
Viu muito, contou muito.



domingo, 17 de julho de 2016

Instalação *

Sexo com calor 
obriga a cuidados redobrados,
diz  a direcção-geral de saúde:

lavem os dentes antes,
verifiquem a temperatura do óleo
e
usem parceiros descartáveis.

O director-geral vela por vós. 









quinta-feira, 14 de julho de 2016

Milosz, contra a mente captiva

I am afraid, so afraid of the guardian mole.
He has swollen eyelids, like a Patriarch
Who has sat much in the light of candles
Reading the great book of the species.

( 1943)

The captive mind, prosa, bandeira anti-estalinista, é famoso Nasceu lituano, morreu americano. Milosz foi Nobel em 1980, desceu na divisão da memória mediática e agora joga nos distritais. O pedaço do poema é da memoria do gueto de Varsóvia.  
Lutou pela resistência polaca contra os nazis, trabalhou para o regime comunista posterior, mas depois, claro, dissidiu: "O meu país tornou-se uma província do império", frase célebre numa entrevista ao Washington  Post.  Em Paris juntou-se ao pessoal da Kultura.